São Paulo, 3 De Abril De 2020

Henrique Wagner

Em fase de adaptação ao deserto de uma das cidades mais populosas do mundo, caminho pelo centro de São Paulo a fim de encontrar um mercado aberto. Sei que há, não sei exatamente onde. Pesa sobre meus ombros a sensação de estar atrasado.

Passo por cima de um antigo rio soterrado, sigo pela frente de um Shopping Light como que dormindo em pé e chego a Barão de Itapetininga, onde há uma pequena aglomeração. É ali, diante do imponente e histórico Teatro Municipal, que paro, sem parar exatamente, para não causar suspeitas: um homem de meia-idade prepara o almoço. Em pé.

São-Paulo-3-De-Abril-De-2020.-2.jpg

Fingindo estar indeciso em relação a alguma coisa (mexo nos bolsos das calças, olho para trás, numa pantomima borrada, quase grosseira), vou observando o que acontece num dos principais pontos turísticos da capital financeira do país.

Ancorados às portas cerradas de uma das unidades das Casas Bahia, três homens cabeludos, barbudos e seminus parecem esperar a hora do rango.

Barrigas estranhamente grandes, talvez estejam apenas digerindo o café da manhã. Perto deles há uma barraca pequena de acampamento – armada. Só então me dei conta de que havia passado por outras barracas e, ao olhar mais longe para dentro da Barão de Itapetininga, enxergo mais duas, todas do mesmo modelo, diminutas, azuis e armadas. Segui andando a fim de não levantar suspeitas de que os perscrutava e constatei a significativa quantidade de moradores (ou pessoas em situação de rua) na Barão. Havia de todo tipo: mulheres macérrimas e desdentadas falando alto, crianças desnudas e com ranho escorrendo pelo nariz, homens ainda dormindo – inteiramente vestidos e até calçados. Uma considerável extensão da calçada quase totalmente habitada por figura alijadas do contrato social. Um desfile de fantasmas muito consistentes, um Halloween subitamente decretado, que o poder público insiste em ignorar apenas apagando a luz pouco antes de dormir. É necessário dizer que essas criaturas da noite, agora, à luz do dia, são um sintoma? Um sintoma da desigualdade social que grassa num país que ainda hoje paga caro por ter se demorado tanto ou mais exatamente por ter sido o último a erradicar a escravidão, e que ainda convive com os resíduos do patrimonialismo?

São-Paulo-3-De-Abril-De-2020.-3.jpg

Volto, lentamente, ao homem que mantinha uma panela no fogo. Eles descobriram o fogo, pensei. Lá está ele, em pé ainda, cortando ou picando legumes sobre um balcão improvisado (caixas de papelão, pedaços de madeira e algumas pedras urbanas). Fiz uma pergunta qualquer – onde ficava a Rua Dom José de Barros – e pude me deter com mais vagar à cena legendária.

O homem havia feito uma pequena fogueira debaixo de uma árvore baixa que parecia um guarda-sol, e que funcionava como tal, e essa fogueira parecia fazer parte de uma incipiente cozinha que, estava claro, funcionava a contento. Perto da cozinha, os moradores da casa. Um verdadeiro camping. Dentro das barracas havia mais pacotes de ração para cachorro do que mantas e alimentos para os seres humanos. E por toda a rua, cães domesticados sem coleira, livres para ir e vir em um ponto bastante disputado pelo mercado imobiliário.

O dia apenas começava. Talvez fosse nove da manhã, nove e meia no máximo. De repente comecei a me sentir mal. Não fisicamente: eu estava bem, venho tomando todas as medidas necessárias para evitar a contaminação pelo vírus da Covid-19 em franca pandemia. Comecei a me sentir mal porque, de repente, me percebi um intruso. Que estava eu fazendo à casa dos outros sem ser convidado?

Bati em retirada, seguindo a instrução do cozinheiro, que havia me ensinado a chegar a uma rua que não me interessava em nada naquele momento. Ainda na Barão de Itapetininga, vi outros tantos moradores daquela casa imensa, todos, naturalmente, muito à vontade, sentados no chão do corredor de pedras portuguesas. Vi uma escada, que descia para o metrô, transformada em banheiro (não sei se público) pelos moradores da casa, que exalava um forte cheiro de urina e fezes. Quase como um antropólogo in loco, um Malinowski – minha admiração pelo antropólogo polonês me levou a pensar imediatamente nele –, concluí que aquela família mantinha hábitos um tanto exóticos em meio à civilização. Atrasado, voltei ao Teatro Municipal com o intuito de pegar a Xavier de Toledo e, finalmente, voltar a procurar um mercado, pois, a fome dava sinal de vida.

São-Paulo-3-De-Abril-De-2020.jpg

Passei pela quarta vez diante do cozinheiro e lembrei que bem ali, na esquina, havia um imenso relógio público. Atrasado, atravessei a rua para sair de baixo das horas e ver os ponteiros. Lá estavam eles, como há mais de uma semana ou mês, parados.

O relógio da cidade quebrara às onze e meia de algum dia do ano de 2020.

Henrique Wagner é poeta e crítico de literatura. Autor dos livros As horas do mundo e A história decalcada.

Mostrando 5 comentários
  • Avatar
    Dea Conti
    Responder

    Perfeita crônica desses dias estranhos e difíceis, mais para uns que para outros.

  • Avatar
    Edson Osvaldo Melo
    Responder

    Excelente retrato do centro paulistano atual.
    É como se eu estivesse caminhando no seu lugar.
    Abraço direto da terra do Dalton, Curitiba.
    Quando for a São Paulo vou visitar a Banca Macunaíma.
    Aliás, bela homenagem a um dos meus livros preferidos.
    Mario de Andrade, presente!

  • Avatar
    Rodrigo Sputter
    Responder

    Grande texto Henrique…cada vez mais temos visto o país na bancarrota…e insanos dizem que o país cresce…triste realidade…incrível como há arte consegue descrever uma triste cena de uma forma poética.

    Onde vamos parar??

    Temo – sempre – pelo futuro…

    Se estamos vulneráveis pra esse vírus…imagine essa galera…mas o “presida” acha que essa galera não morre….pq pode dar uma “caída” no esgoto e não pegar nada…enfim…colocaram ele lá… então QQ absurdo não será mais precedente – somente – na Bahia.

  • Avatar
    Renata Mirian
    Responder

    magistral! parabéns por revelar tão bem a cidade que alguns querem esconder …que possa o povo brasileiro se olhar e se ver com verdade e quem sabe transformar- se …

  • Avatar
    GILSON DE MOURA MODESTO
    Responder

    Não estivesse eu no mundo de hoje e lesse este excelente texto o qualificaria como ficção. Bom demais.

Deixe um Comentário

Confesso-Que-Torci-1Poroaberto-AldirBlanc-1.jpg