Revista Pé De Cabra #3

Felipe Rodrigues

A antologia de histórias em quadrinhos Pé de Cabra 3, lançada em 2020 pelo editor e autor Panhoca, apresenta diversos quadrinistas/ficcionistas que se debruçam sobre a temática TELEVISÃO em um esforço individual; mas que se configura em uma ação conjunta formando uma publicação de teor crítico a respeito das redes de TV.

De maneira contumaz, a maior parte das histórias –como não poderia deixar de ser – revela um memorial a respeito da programação dos canais abertos

O que conflagra o caráter de enriquecimento cultural proporcionado pela publicação, tanto como forma de  representação ficcional/realista de parte da História; como na manifestação dos muitos matizes expostos pelos artistas e que apresentam de que maneira a influência do caldeirão programático foi incutida na subjetividade destes autores e os resultados deste processo.

Talvez a maior síntese desta ideia esteja na história do autor Joao B. Godoi, na qual ocorre uma reflexão em que um apresentador de programa de entrevistas confessa ao seu convidado, um ídolo antigo da TV: “eu te assisto desde o tempo que eu só conseguia perceber imagens e sons, antes mesmo que eu pudesse saber o que era um aparelho de televisão, eu estava te assistindo. Então você foi o meu primeiro amigo que eu tive da televisão”.

Esta gênese que nos coloca como criaturas modificadas a partir de experiências televisivas – evidenciada na ficção de Joao B. Godoi – sofre nesta Pé de Cabra 3 um processo de inversão de cunho vingativo por parte dos autores que, com suas criações, tornam-se agora os agentes modificadores da televisão e sua grade programática – reduzida à criatura, ofuscada em seu poder e ressintonizada.

E nestas inúmeras atualizações ganham destaque as características mais gritantes da TV brasileira mutadas em alegorias sobre: o exagero; a superficialidade; a ignorância; a violência; entre tantos outros aspectos que apontam para uma falta de ações que busquem viabilizar uma TV gratuita de qualidade, educativa e emancipadora para o povo.

Estes cus formados em cabeças gigantes, estes apresentadores neuróticos e narcotizados, a presença constante da propaganda apelativa, os telejornais tendenciosos, os personagens ridicularizados e, por último, o telespectador adicto que engrossa esse caldo. Nenhum deles está nas páginas da Pé de Cabra 3 de forma gratuita; são resultados de uma frustração e de uma necessidade de representar em qual ponto cada um desses autores sentiu-se lesado.

Revista Pé de Cabra 3

São histórias como “Meu Filminho”, do personagem empático chamado Fanikito, criado por Marco Vieira; que acusam, por meio de um excesso, sobre relações violentas alimentadas pela TV: a influência do apresentador escroto – símbolo da exposição nefasta e exacerbada por audiência – reflete-se em um garoto-javali frustrado e que vê em um programa de auditório a sua chance de ser legitimado em um concurso de vídeos-caseiros.

Neste intuito, acaba por conflagrar um jogo de domínio e submissão envolvendo seu vizinho e por consequência seu pai brutalizado. Tudo descamba em uma conclusão irônica e escatológica que funciona – ao retornar com força desmedida à origem do problema – como mais uma das vinganças que dão o tom desta Pé de Cabra 3.

Também com o mesmo recurso de extremar uma situação para colocar o objeto de crítica em evidência; Emilly Bonna, traz sua fábula macabra “Por Que Alda Sofre?”

Elaborada micro-saga conduz o leitor por todo o processo que – por meio dos raios catódicos do tubo – acaba por alterar drasticamente a cognição de telespectadores mirins; transformando-os em monstros ditadores do controle remoto com práticas anti-higiênicas induzidas por uma espécie de show de bizarrices.

A mãe desta trupe esquisita – personagem principal e elemento mais razoável da trama – revela-se ao final ser a principal causa de toda a desgraceira alienante – o que indica uma falta de perspectiva aterradora sobre o futuro que os programas voltados ao grande público possam vir a ter.

Solano Gualda, em apenas uma página, sintetiza basicamente toda a idiotização de inúmeras gerações formadas pela teledifusão. Kellen Carvalho, em “Histórias da Loucura da TV Brasileira”, evidencia o charlatanismo neopentecostal. Lobo Ramirez traz à tona a apatia gerada pela TV em um grupo de amigos. E Cynthia B. finaliza o volume com uma história sobre o desalento de uma garotinha em relação à realidade, criado e amenizado pela programação diária. E há muitas outras criações.

Desta maneira, as histórias em quadrinhos da Pé de Cabra 3 compõem um processo de compreensão conjunto que vai na contramão de idiossincrasias puramente masturbatórias.

Elas depõem a respeito de uma lacuna, de uma carência incômoda que é produto destes novos tempos, mas de gestação antiga e produção contínua. Tempos de aniquilação referente a qualquer tipo de conteúdo que possa engrandecer o ser humano como receptor e, consequentemente, como transformador da realidade.

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