Prazeres Desconhecidos Ou Cotonetes Desconexos No Seu Labirinto Auditivo

Márcio Calixto

Como o próprio nome de um disco cabal do estilo, o post-punk não se define, melhor, não se sabe. Existem marcos históricos, Pere Ubu e sua Final Solution, de 1976 é um dos. Neu!, Faust, Can, Kraftwerk, aqueles pioneiros alemães do Krautrock, bem anteriores, que já gritavam como a personagem sobre a ponte, de Munch, anunciando o casamento da luz e do caos, também.

Mas tem o Velvet e seu noise minimalista e monolítico, reivindicando seu lugar de criador da destruição. Ou o Red Krayola e seu highlander Mayo Thompson, com “Hurricane Fighter Plane” e “War Sucks”, também de 1967.

SE FOSSE SUGERIR UM MARCO ZERO, SERIA NO PLURAL, MARCOS ZEROS

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Pink Flag do Wire, de 1977 é possível, todavia não definitivo, (posso citar um bisavô, Erik Satie!). Minimalismo e repetição é algo estrutural no post-punk. John Cage e seus experimentos, tem culpa também. A arte de vanguarda, seus pintores, dançarinos, cineastas, poetas e teóricos, tudo isso é combustível para o grande fogo, o jogo alucinatório das sombras e das luzes.

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ALIENS GENIAIS COMO ENO, BOWIE, KLAUS SCHULZE, TAMBÉM APONTARAM UM CAMINHO

É algo para crer e não entender, já diria Cocteau, que batizou uma das entidades mais etéreas e originais da cena e que por sua vez também influenciou outras vertentes sonoras. Um cotonete desconexo, como diz o título de uma canção do Cabine C, que não viu a luz do sol, só o outro lado da lua. Mas, hoje com o advento da internet e das redes sociais, é um pouco mais compreendido e assimilado.

São tantas cores selvagens dentro do branco, que nem o mais nativo dos esquimós poderia domá-las. Ele afundaria seus olhos no gelo polar e esqueceria que um dia existiu. Seria acometido de uma colossal amnésia e seria esmagado, assim como se tentarmos parar uma avalanche com uma colher! São tantas possibilidades dentro do post-punk e é por isso que é tão excitante e inclassificável.

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DAS TRIBOS MAIS PRIMITIVAS AS TRIBOS MAIS HI-TECHS, É POSSÍVEL JUNTÁ-LAS NUM MESMO SENTIMENTO FINAL. DO BIG BANG AO APOCALIPSE E NO MEIO DISSO TUDO CABE A VIDA E SEUS SUBTERFÚGIOS

Desde o início existe essa proposta, inconsciente ou não. O direito a irracionalidade ou ao avesso, o profundo pensar existencial. Os paradoxos se fundem nesse ato transcendental. Grito primal ou voz robótica. A música pulsa, violenta ou se arremessa no espaço. Penso o post-punk como Octavio Paz em seu O Arco e a Lira pensa a poesia. Tudo é possível. Xamanismo incandescente e glacial, extático e estático. Uma revolta e uma re-volta. Vômito e sorvo. Várias vias, Apia, Arcádia, sacro-profanas, artérias e becos, esgotos e aquedutos. Os 4 rios do inferno, as sete camadas do céu. Stonehenge e Cracolândia!

Como diz aquele clássico prazer ignorado do Ida e os Voltas, “se for continuar, não acaba…”

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