Murder Ballad À Brasileira: Baladas Sangrentas

Felipe Rodrigues

Continuando o post sobre as Murder Ballads, aqui no Brasil não existe a cultura das baladas sangrentas. Ainda assim, muitas canções correspondem direitinho não só no rótulo extrapolando o molde.

Tanto na forma quanto no conteúdo, os brasileiros destacam-se neste subgênero; trazendo à tona histórias macabras, personagens históricos, tragédias familiares e brigas de bar.

Este parece um estilo feito no Brasil com a naturalidade de uma canção de amor

Os versos e notas escoam conforme os personagens são apresentados de maneira incrivelmente simples. Os causos ocorrem geralmente no sertão nordestino, nas periferias urbanas e cidades do interior onde a lei e a bala se confundem de acordo com a necessidade.

São nestes locais que surgem obras aterradoras de assassinatos como “Tragédia em Goiás”, da dupla sertaneja Leôncio e Leonel. A canção que envereda uma dupla ou tripla-balada de morte; mostrando a essência de uma história de horror crua e que passa longe de apresentar a glamourização das músicas sangrentas mais conhecidas.

Fica óbvio nesta canção que está além de algo que se possa ouvir por diversão, para passar o tempo (estão longe de ser música de elevador); causando mal-estar em quem escuta pela primeira vez e trazendo uma reflexão sobre a violência.

Quem assimila “Tragédia em Goiás” passa a entender, como se estudasse uma guerra entre povos num livro de História; um pouco mais sobre os limites frágeis entre a normalidade e a barbárie.

Na música, a criatura que inicia o ouvinte na narrativa é um porco que, após ser sangrado e sapecado por um pai de família, simplesmente parece induzir seu filho mais velho fazer o mesmo com o do meio.

Portanto ao comparar o porco de Leôncio e Leonel ao passarinho cantado por Nick Cave quando a mulher da canção “Henry Lee” mata o amante; percebe-se a diferença do mal-estar contido numa murder ballad à brasileira.

Na continuação de “Tragédia em Goiás”, a esposa, parecendo inabilitada do raciocínio após descobrir tamanha desgraça, mata o primogênito com uma paulada seca na cabeça e, no desespero, deixa o caçula afogar-se na água. Depois disso, o casal tira a própria vida ingerindo formicida, fazendo desta composição talvez uma das mais agourentas do gênero.

Ou seja, personagens inocentes e sombrios, dos quais nada se sabe, agem numa atrocidade que parece inexplicável para sempre e, como em qualquer caso deste tipo, o porquê sempre se torna a questão jamais elucidada. Afinal, o que leva alguém a fazer isso?

Desta vez de forma cômica, os morros do Rio de Janeiro trazem outro tipo de canto de morte. Apesar do fogo cruzado em que se veem reféns os moradores das favelas; o lúdico das Baladas Sangrentas ousa dar a cara a tapa através de um observador agudo como Bezerra da Silva que, entre batuques e rimas sobre a vida dura; apresenta situações violentas de forma a fazer homicídios lembrarem filmes de Mazzaropi.

Uma tragédia é sempre uma tragédia. Mas pelo viés da sua presença constante no cotidiano das pessoas, acaba por ser banalizada, e o povo, para não enlouquecer, transforma em piada. Assim, contada com gírias como “jogar brasa na cara do cara” ao se referir a um tiro no rosto; Bezerra da Silva, em “Legítima Defesa”, faz um tipo de humor autêntico e originado desta necessidade de rir da própria desgraça.

O músico narra em primeira pessoa este hino de briga batizada de “O Malandro Era Forte”; exaltando o porte físico e a luta suja do seu adversário, o que na conclusão acaba por não ser de grande vantagem

“Se eu não derrubasse eu caía, porque o malandro era forte, ele dava pernada, dava cabeçada, ele era de morte”

O ar de humor pastelão que envolve a composição tragicômica é mais uma vez o ponto alto. Utilizando-se do mesmo argumento da parábola “David e Golias”; o malandro Bezerra já nos faz desde o começo torcer para o rapaz em suposta desvantagem e apavorado pelo grandalhão. E nosso herói mirrado só leva as coisas às últimas consequências, ou seja, pega o “berro”, por não conseguir conter o brutamontes de outra forma.

Outro personagem forte – desta vez pelo peso histórico – presenteia a literatura das murder ballads nacionais quando tem momentos marcantes de sua vida cantados por Luiz Gonzaga

Na canção sangrenta de título simples e certeiro, “Lampião Falou”, o Rei do Baião canta em primeira pessoa como se fosse o próprio cangaceiro.

Então, Lampião/Gonzagão nos fala sobre o quanto matou – adentrando ad infinitum a música ao rótulo – e sobre o quanto morreu no fatídico ano de 38 em que foi baleado. A percepção da morte multiplicada e multifacetada, embotada tanto pela história do personagem como a do cantor; parece ressignificar todas as outras canções do músico que, transmitindo ao mesmo tempo, alegria e tristeza, tornam-se tão simbólicas.

“Rubro Zorro”, da banda Ira!, não se enquadra completamente ao rótulo murder ballad, mas merece atenção:

Em uma das poucas músicas que fazem referência direta a um psicopata real, não há exatamente a narração de um assassinato, mas sim a apresentação de fatos relacionados a sua ação dentro da paranoia urbanoide.

O Bandido da Luz Vermelha, que assaltava e assassinava pessoas em casarões abastados da região central de São Paulo; utilizava uma lanterna vermelha e uma máscara para cometer os crimes. Daí a origem do título, rubro pelo vermelho da luz e Zorro pelo personagem mascarado das revistas pulp e séries televisivas. Logo nos primeiros versos, sabe-se que ele “era visto como um bom rapaz”, pois roubava na capital de São Paulo e depois ostentava em Santos; cidade praiana onde achavam que ele era filho de fazendeiro ou de família rica.

A canção remete a uma trilha de faroeste, mas, seguindo uma das leis das baladas sangrentas, sofre uma atualização para o ambiente urbano; onde é possível, assim que soam os acordes, imaginar um bandido que acaba de chegar com seu cavalo a trotar vagaroso e imponente no meio da Praça da Sé.

A referência cinematográfica torna-se mais incisiva quando, ao primeiro minuto da canção, é apresentado o diálogo: “trata-se de um faroeste do terceiro mundo!”. O excerto foi retirado do filme O Bandido da Luz Vermelha, do diretor Rogério Sganzerla, um dos ícones do Cinema Marginal.

Entre outras canções que chamam a atenção e podem ser enquadradas como baladas sangrentas bastante irreverentes, visto que a lista é quase sem fim, destacam-se “Matador de Passarinho”, de Rogério Skylab, e “Caminhando e Matando”, da banda Zumbis do Espaço

Ambas as mais diretas e engraçadas, diferenciam-se a partir dos alvos escolhidos. Na primeira, após cantar aleatoriamente o nome de vários tipos de aves, Skylab assombra os ouvintes com um refrão onde repete “matador de passarinho! matador de passarinho!” ao som de balas ao fundo. Inaugura-se aí a balada-de-assassinato-de-passarinho.

Já o som dos Zumbis do Espaço lembra uma espécie de hino. Uma canção chiclete que parece cantada pelos Sete Anões em sua versão mais macabra.

A gangue diz que “já andou todos lugares” e, ao passar massacrando velozmente o maior número de vítimas possível, comemora o feito cuspindo o refrão “por onde eu vou, por onde eu vou… mato tudo e mato todos onde eu vou”.

E o assunto não acaba tão fácil. Afinal, tanto as canções de assassinos dos séculos passados quanto as modernas baladas sangrentas formariam compilações quilométricas ou quem sabe até mesmo um livro.

Sugestões de outros títulos:

  1. João Pacífico – Cabocla Tereza
  2. Replicantes – Sexo e Violência
  3. Bruce Springsteen – Nebraska
  4. Eddie Noack – Dolores
  5. Bob Dylan – Ballad of Hollis Brown
  6. Nancy Sinatra – Bang Bang
  7. Johnny Cash – Folsom Prison Blues
  8. Huddie Leadbelly – Black Girl (In The Pines)
  9. Niela Miller – Baby Don’t Go Downtown
  10. Rihanna – Man Down
  11. Nirvana – Polly

Ilustração: Kellen Carvalho @velha.cosmo

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