Meu Amigo Belchior

Newton Fusetti

EU QUERO lhe falar, meu grande amigo, das coisas que aprendi em seus discos. Quero lhe contar tudo o que aconteceu comigo. Eu era apenas um rapaz, latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.

Essa é uma carta para todos aqueles que foram salvos por ele, Belchior.

Era junho de 2014. Na poltrona 23 de um ônibus com destino a São Paulo, lá estava aquele rapaz. Nunca, em 20 anos, eu tinha me mudado de casa. Nasci e cresci no mesmo bairro, na mesma casa e com os mesmos amigos. Às vezes, algumas situações fazem com que você saia de uma inércia totalmente cômoda, como era o meu caso. Na poltrona, eu pego meu celular e coloco alguma música para passar o tempo. Aperto o play. A música era PEQUENO MAPA DO TEMPO; ela entrava pelos meus ouvidos como um prego que a cada batida sofrida, é cravado na madeira. EU TENHO MEDO, BELCHIOR, EU TENHO MEDO.

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Belchior. Autor desconhecido

Como era possível viver em uma cidade com milhões de pessoas e se sentir extremamente sozinho, pensava em voz alta. Em meu primeiro ano vivendo em São Paulo, Antonio Carlos Belchior salvou minha vida, diversas vezes. Ele conseguia cantar sobre minha vida; sua voz era minha voz; minha angústia era o nosso sofrimento. Eu ouvia muitos discos, conversava com pessoas, caminhava o meu caminho, papo, som, dentro da noite, mas, assim como ele, não tinha um amigo sequer. Tudo muda, ele me falava. Tudo muda, e com toda razão.

Há mais de 40 anos, Belchior escrevia o disco da vida de milhões de pessoas. Alucinação marcou vidas de jovens e adultos. Salvou tantos outros.

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Capa do álbum Alucinação de Belchior em 1976.

Hoje, seis anos depois, sinto-me mais paulistano do que nunca. Foi aqui que chorei no dia de sua morte. Foi aqui que encontrei pessoas maravilhosas, amigos, irmãos. Tudo muda, não é, Belchior, e é fascinante que mude, com toda razão. Não espere da poesia de Belchior algo diferente da dor, do sentimento de desespero; nada correto, branco, suave, muito limpo, muito leve. Espere sons, palavras como navalhas que vão lhe ferir o mais profundo possível. Mas não se preocupe, meus amigos, é somente poesia, canção, verdades…

Se você, Belchior, me perguntasse por onde andei, diria que eu me desesperava. Agora, tenho vinte e seis anos, de sonho e de sangue, e de América do Sul, mas por força deste destino, naquele ônibus, há seis anos, hoje seu som me vai bem melhor que um Blues.
Mostrando 2 comentários
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    Pedro Pellegrino
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    Gostei! Grande abraço, palestrino.

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    Alencar
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    Carta fascinante, muito bem escrita.Também sou fã de Belchior. Eu o conheci pessoalmente em 1976, quando trabalhava na Unilivros. Ele frequentava com certa assiduidade a livraria. Tive o prazer de atendê-lo uma vez, e lhe vendi um Dicionário Aurélio. Contei pra ele que também era cearense, e a partir daí, entre uma e outra confidência passei a nutrir uma grande admiração não só pelo seu talento musical como também pelo seu profundo conhecimento sobre literatura em geral.

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