Malha: Um Jogo Delicioso De Pobre

Felipe Rodrigues

É domingo à tarde e um barulho estridente toma conta do bairro do Mandaqui, na Zona Norte de São Paulo. São os discos de ferro raspando o asfalto da rua Flora, onde ocorre o tão esperado campeonato de malha. Ademais, criançada fica na calçada assistindo. O jogo é jogado na rua, normalmente em um largo, e precisa parar quando um carro passa. Os moradores se divertem e torcem cada um pela sua dupla favorita.

Criado na Europa do século 17, a MALHA resiste nas ruas de São Paulo

O objetivo do jogo de malha é arremessar um disco metálico e tentar derrubar ou deixá-lo o mais próximo possível de um pino, geralmente de madeira, que fica no centro de uma circunferência demarcada por giz (ou pedaço de tijolo), localizada a cerca de quinze ou vinte metros de distância do arremessador.

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As partidas são jogadas por duplas. Sempre que o pino central é derrubado, são somados 4 pontos. Depois das quatro malhas jogadas, a que ficar mais próxima ao pino soma 2 pontos. Cada jogo termina aos 30 pontos e ganha o time que primeiro conseguir atingir a meta. “Mas a regra muda de lugar para lugar”, explica Diógenes Castro, administrador de empresas, 45 anos, o mais novo dos jogadores.

“É assim que a gente passa o tempo por aqui, né?”, diz Aurélio Vasconcelos, 65, aposentado e praticante do jogo.

Ele já faturou dois troféus ao lado de seu parceiro, Jucenir Moravia, 61, também aposentado. Vasconcelos fica indignado com as reclamações dos vizinhos. “Essa barulheira só serve para encher o saco. Todo o domingo é a mesma coisa, não dá nem para descansar”, reclama dona Nair Souza, 56, que mora na casa bem ao lado do “campo” de malha.

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Apesar de todo o esforço de dona Nair para acabar com a farra da malha, ouve-se falar deste jogo desde 1644; quando aconteceu a primeira partida. Pioneiramente praticado por franceses e italianos, chegou ao Brasil com os portugueses, que também o denominam por Jogo de Ferraduras, Chinquilho ou Jogo do Fito.

Existem campeonatos famosos em Portugal como o Torneio Inter-Freguesias do Jogo da Malha, da cidade de Fafe.

Malha é jogo de pobre”, provoca a mesma Nair com um sorriso no rosto. Apesar de não gostar do barulho, ela parece reconhecer que o jogo é uma das poucas diversões do bairro, além de ser tradicional na cidade. E não está errada quanto a isso, pois, o esporte ocorria na rua 25 de Março desde 1890. Eram os “peões” buscando divertimento após um dia de trabalho. Eles improvisaram o jogo europeu usando pedras, ferraduras e chapas de ferro, tornando-o autenticamente brasileiro. Faziam de tudo para derrubar o “meco”, como é chamado o pino do centro.

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Assim, essa história continua no bairro do Mandaqui.

O campeonato do domingo foi vencido pela dupla de Diógenes. Eles comemoram a vitória rindo dos oponentes. “Dessa vez não deu”, conforma-se o tantas vezes campeão, Aurélio. Ele e seu parceiro conseguiram apenas 20 pontos e estacaram. “Malha é técnica”, explica Diógenes. Para o sossego de dona Nair, ao fim do jogo, eles conversam baixinho, fumam e vão para casa. “Agora tenho que aproveitar, pois domingo que vem já volta isso aí”, diz a senhora.

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