Leia O Livro E Assista O Filme (Ou Vice Versa)

Ana Paula Santos

Adaptar livros para o cinema é um recurso muito utilizado; que já rendeu produções maravilhosas (como Cabo do Medo, do Martin Scorsese) e outras totalmente esquecíveis (tipo Caixa de Pássaros). A maior complicação ao fazer a versão cinematográfica é transportar aquelas páginas para as telas de modo que o filme seja suficiente entendível e que o espectador não precise do livro para entendê-lo; Mas saiba que, ao ler, sua experiência será amplificada e enriquecida. Dentre as dezenas de milhares de películas adaptadas existentes por aí, selecionei (com critérios muito pessoais), alguns títulos variados lançados em diversas épocas. Não escolhi nenhum nome estranho ou raro, pois procurei focar em títulos mais conhecidos, só variei mesmo o gênero. Na real, isso tudo é uma desculpa para eu falar um pouco dos livros de que eu gosto muito.

# A REDE SOCIAL

Foi para entender e contextualizar todo o passado nebuloso da criação do Facebook que o escritor Ben Mezrich publicou em 2008 “Bilionários Por Acaso”. Com detalhes (e um ritmo dinâmico), conta como dois estudantes de Harvard criaram um programa que visava inicialmente listar as estudantes mais bonitas do campus; e que mais tarde se tornou a rede social / empresa mais lucrativa de todos os tempos. De 2011, dirigido por David Fincher, trouxe o excelente Jesse Eisenberg interpretando um Mark Zuckerberg genial e moralmente dúbio. Do mesmo modo, como acontece com o livro, simplesmente não tem como largar esse filme antes do final. E de quebra, tem a trilha sonora excelente, composta por Trent Reznor (do Nine Inch Nails) e Atticus Ross. É um ótimo longa-metragem, com uma tremenda história de amizade, traição, inveja, muito dinheiro, mulheres e uma invenção que mudou para sempre o modo como lidamos com a internet.

# ALTA FIDELIDADE

Música é o ponto central da minha vida desde muito criança quando via minha mãe colocando Beatles na vitrola. Então, foi com grande alegria que li, lá pelos meus 15 anos, o romance Alta Fidelidade. Escrito pelo inglês Nick Hornby e publicado originalmente na gringa em 1995. Na trama do livro, a gente acompanha o dono de uma decadente loja de discos que, do alto dos seus 30 e tantos anos, não consegue firmar uma relação estável. Logo depois de levar mais um fora, começa a rever todos os seus namoros anteriores para entender o que ele tem feito de tão errado. Dirigido por Stephen Frears e lançado em 2000 tem atmosfera pop e melancólica na medida, nos faz refletir sobre nossas escolhas e a difícil tarefa de crescer e amadurecer. Meu destaque particular é para o personagem de Jack Black, que rouba a cena cada vez que aparece. Sem esquecer, claro, do John Cusack, na pele de um Rob Fleming que tenta se encontrar no mundo; enquanto faz listas sobre os 5 melhores de qualquer assunto que você imaginar. O filme é sobre ser adulto e também os anseios jovens que nos dominam. Impossível não se identificar.

# TRAINSPOTTING

Existia uma gíria escocesa nos anos 90 usada para descrever pessoas que, sem estudo ou emprego, passavam os dias na beira das estações de trem olhando o vai e vem das composições: trainspotting (obsevadores de trens). Esse jargão também servia para determinar uma atividade sem sentido. Escrita pelo escocês Irvine Welsh, publicado em 1993, a gente se depara com isso: jovens sem perspectivas, dividindo seu tempo entre bebedeiras, brigas, futebol, roubos e uso desenfreado de drogas. O livro é cru e muitas vezes violento. Mas, tem um ritmo dinâmico que nos deixa entretidos do início ao fim, acompanhando as desventuras de Renton, Sick Boy, Tommy, Matty, Spud e Begbie; enquanto correm pelas ruas de Edimburgo renunciando a uma vida adulta vazia e entediante. Em 1996, o ótimo diretor Danny Boyle levou esse drama para as telas com uma dose de ação e uma trilha sonora matadora, até hoje lembrada por muitos. Um Ewan McGregor novo interpreta o protagonista-narrador Renton; tentando se livrar do vício em heroína, vendo de camarote seus amigos e conhecidos arrumando todo tipo de problema. Tudo isso, numa cidade grande, suja, intolerante, sufocante e bem perigosa (igual muitas cidades grandes por aí). Que livro, meus amigos! E que filme!

# LARANJA MECÂNICA

Ao longo de sua MUITO bem-sucedida carreira, o diretor Stanley Kubrick adaptou para as telas alguns livros importantes como O Iluminado e Lolita. Contudo, o destaque aqui é para uma das suas obras mais controversas e impactantes. Lançada em 1971 e baseado no livro de Anthony Burgess, narra a jornada de ultraviolência de Alex e sua gangue. Ao adaptar a história, o sempre perfeccionista Kubrick criou uma obra que extrapolou os limites do cinema e se tornou referência de estilo; quem não lembra do figurino branco com chapéu-coco dos rapazes? Também fonte de inspiração para nomes de bandas. Assim como, criou a maior polêmica com a agressividade explícita e crueza com o qual retrata o cotidiano desse jovem sociopata e seus amigos tão perigosos quanto ele. No entanto, a grande questão levantada pelo autor e ressaltada por Kubrick, é sobre como a sociedade pode combater a brutalidade individual, se ela é, em sua formação, tão violenta quanto. Alex prova disso na pele quando se submete a técnica Ludovico e acaba “perdendo” o seu direito de defesa das agressões sofridas. A certa altura a gente não sabe mais quem está certo ou não. Talvez provavelmente, estejam todos errados mesmos. Menos Stanley Kubrick. Esse nunca errava.

# ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE

Sou uma grande fã da escritora inglesa Agatha Christie e devo ter lido uns bons 35 livros dela, nessa minha vida. Tive a chance de assistir duas adaptações da sensacional obra “Assassinato no Expresso do Oriente”. A de 1974, dirigida pelo ótimo cineasta Sidney Lumet, com Albert Finney interpretando o icônico detetive belga Hercule Poirot. E a mais recente, de 2017, dirigida e estrelada por Kenneth Branagh. Particularmente, prefiro a versão mais antiga, pelo garbo, elegância, um elenco incrível (que inclui as maravilhosas Lauren Bacall e Ingrid Bergman) e o único Poirot possível. Para quem não se lembra do enredo, o detetive embarca em uma viagem de trem e no meio do caminho, numa noite de tempestade de neve, um dos passageiros é assassinado. Tudo indica que qualquer um dos outros viajantes poderia ter cometido esse ato. Mas qual? Adaptar tramas de suspense não é fácil, ainda mais quando escrito pela “rainha do crime”. Entretanto, diretor e elenco encararam bem esse desafio e nos entregaram um filme tão instigante quanto o enredo no qual foi inspirado.

Ana Paula Santos não assistiu a trilogia 50 Tons de Cinza porque já perdeu tempo demais lendo livros.

O Cine Zero é o programa de cinema da rádio antenAZero e vai ao ar todos os domingos às 20 horas. Apresentado e produzido por Ana Paula Santos, Marcus Sarto e Rapha Mussato
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