Filosofia Da Composição

Henrique Wagner

Depois de anos, décadas, séculos, milênios de tentativas e erros e aprimoramentos, o homem chegou à construção não só de casas, mas de edifícios enormes e belíssimos, tudo ancorado em experiência, em fórmulas que foram testadas à exaustão. Há, portanto, um modo de se construir casas e edifícios. No máximo dois ou três modos. Certo é que há que se fazer a base consistente, pensando na altura da construção, sua estrutura, de um modo geral.

Desde Aristóteles, no mínimo, há um modo eficiente de se produzir um texto – ou uma música (pensemos agora na forma-sonata; ou um filme) –, e digo eficiente pensando na eficácia do efeito sobre o leitor. Séculos mais tarde Poe dissemina a “teoria da unidade de efeito” como pressuposto básico para a construção de um conto que “funcione”. 

Mas o que é funcionar para Poe – e Aristóteles, claro – ? É sobretudo envolver. Envolver o leitor, cativá-lo, tirá-lo de casa colocando-o dentro da história. Quem quer que tenha lido “O poço e o pêndulo” sabe que o grande poeta e contista norte-americano foi além de sua teoria, matando a cobra e mostrando o pau. E sabe que o pianíssimo encontrado nos famosos desfechos dos contos de Tchecov é uma releitura de Poe, uma continuação, portanto, como Katherine Mansfield é um sequenciamento do genoma do autor russo. Mas sim, depois surgiu um William Saroyan tentando “rasgar a Constituição” com um negacionismo meramente iconoclasta que produziu contos maçantes.

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No soneto a fórmula aristotélica ganha um verniz hegeliano e temos, mais uma vez, o resultado de anos, décadas, milênios de tentativa e erro.

O soneto digno do nome que carrega apresenta um tema no primeiro quarteto, desenvolve-o no quarteto seguinte, revolve o tema com o esboço de um contraditório e arremata nos tercetos, fechando com uma chave de ouro – o clímax, a epifania, o grand finale de um concerto. No caso de Camões, como bem atesta o professor e pesquisador Antonio Medina Rodrigues, há ainda uma particularidade: o gênio português começa o soneto com uma visão abrangente do tema, e particulariza-o nos tercetos. Um detalhe… – a fórmula é aristotélica ainda, como a das redações examinadas pelo Enem.

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Descobriu-se, já no século da reprodutibilidade técnica, que um filme só consegue prender o espectador por, mais ou menos, cem minutos – daí ser essa a duração média dos filmes em todo o mundo. Mais que isso e o cineasta corre o risco de dar ainda mais trabalho ao lanterninha. Sabemos da existência de obras-primas como o Andrei Rublev de Tarkovski, o Satantangó de Bela Tarr e outros tantos filmes de longa duração. Mas todos, mesmo bons, são de consumo árduo, e não é raro o cinéfilo se preparar, feito um pintor bizantino que jejua dias inteiros antes de produzir mais um ícone, para assistir esse ou aquele filme genial, mas “difícil”, como certos romances de Virginia Woolf e, seguramente, como o Ulysses de Joyce – mas não o Quixote de Cervantes, mas essa é uma outra história.

Pois bem, mesmo depois de tantos exemplos, há os refratários, gratuitamente  refratários, que decidem inventar a roda em pleno século XXI, não com um objet trouvé, o que seria ainda a consequência de uma tradição, mas com essa ou aquela obra inteiramente fora da trena e do esquadro, que não envolve, não estabelece um diálogo, não se mantém em pé, enfim.

Claro está que não me refiro a criadores que “experimentam”: estes se utilizam da tradição para produzir suas obras disruptivas. O mesmo não se dá com aqueles, que negam uma forma, ou seu diminutivo, seu equivalente walseriano, uma fórmula, apenas para “causar”, como se diz hoje em dia, ou, porque não sabem, simplesmente, manejar, como Einstein, as descobertas de Newton. Se Coltrane nos aparece totalmente despido de todas as progressões harmônicas em seu espinosano “A love supreme” é porque passou, atravessou todas elas ao longo de sua fulgurante e breve carreira musical, com um degrau anterior em  Giant  Steps.

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Voltemos à construção de uma casa. Meu muito generoso leitor que está aqui comigo ainda, você moraria em um apartamento construído por alguém que, deliberadamente, construiu o prédio sem alicerces? Começar a ler um romance de mil páginas de um jovem autor da Nova Zelândia aclamado por não seguir qualquer tipo de regra não é tão arriscado quanto morar no décimo primeiro andar de um edifício “excêntrico”, mas pode causar vertigens e refluxos. Afinal, toda e qualquer revolução –  pensemos na voz “desafinada” de João, na batida “atravessada” que tanto incomodou Elizeth Cardoso – é uma reação, é uma alternativa, ou seja, é algo novo em relação ao que já se conhece. Como os meditadores zen que se utilizam da mente para se livrar dela num salto quântico.

Definitivamente uma revolução não é o mesmo que uma célula que se livra do determinismo da natureza, ou seja, do sistema imune, e começa a atacar outras células do organismo. A esse tipo de iconoclastia dá-se o nome de doença autoimune.

Comentários
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    Dea Conti
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    Baita texto!!!! ❤️

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