Doar E Presença

Adelia Well

Para o todo que me tece o corpo sobre ele dependurado cada taça que contém meu nome um almoço à mesa os domingos e tudo que nele acontece e que dele brota paz que me condiciona e amacia o peito e eu em meio ao meio sibilo o saber o duvidar boca minha que balbucia eternos cantos à todas as Plêiades para ver se saram. Eternas terras de meu corpo hoje se comprazem em demorar e demorar e demorar e mais um pouco um demorar uma demorância um dilúvio do tamanho de Júpiter de tanta demora no que é me belo e a beleza da paciência da presença da paciência e ela toma espaço e toma forma e toma tamanho um relógio inteiro um dia inteiro um bairro inteiro uma pessoa inteira a beleza da paciência que me toma inteiro meu planeta e minha existência que assim, desabrocha; o tempo de tudo é a presença do infindável indizível inebriante inefável pura cascata de nuvem e pureza dos mil saberes ancestrais antes de mim e à gota por gota por passo e passo osso e dente, e flor-da-noite lua negra lua cheia e estar em vida e em pulso há milênios para o processo do purificar que é a joia perdida, cristal em meio à lama de si e ainda se perdem sem saber para onde olhar o céu sempre esteve sobre ti querido.

Retorno todos os dias à Presença para poder voltar para casa acho linda essa frase nesta língua volta para casa, sim; volta pra casa: lá é a intermitência donde tudo sai tudo voa tudo doa todo doar doação mãos abertas e apenas ali para amparar, um pequeno repouso, pássaro que bica a pata pequena e delicada sobre o fio o meio fio o galho a espera a espera de uma vida que talvez nunca venha por estar onde não se existe ainda, mas aqui e só aqui tudo existe e tudo se desdobra e tanto, mas tanto imenso quilométrico a cauda de uma raposa que se assenta sobre o feno e repouso em todo o devir reverie que canaliza tudo que em mim, engendra luz e ternura; doar é ternura.

Coração que se treme com o que hoje onde há tanto gesso tanta ferrugem e há de se untar todas as vias do corpo para deixar de morrer para deixar de cair de quedar de morrer três vezes por dia ou cinquenta mil para deixar de morrer há de se querer deixar a morrer a leseira essa morrência nossa de cada dia creio do mesmo como há peso há leveza, delicatessen, um pouso sobrevoo sobre a relva de si de si mesmo e do outro e do outro mais outra vez com a delicadeza de quem carrega a cabeça de uma criança agora nascida. Todo a vida berra a beleza dos seres e da paciência e deixa então deixa pelo amor dos céus ou luz de qualquer coisa em que deposites teu coração o novo se vir e ser breve e tão demorado quanto um milênio para tudo salvar porque do outro lado da existência ainda há devir muito devir vida e que todas elas sejam a cura dessa caminhada que não precisa ser funesta.

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