Dia Do Rock – Há 30 Anos O Grunge Aportava No Brasil

Felipe Rodrigues

Em tempos de mídias sociais e telecomunicações em constante avanço, pode parecer mentira, mas para se manter informado sobre as novidades nos anos 90 era preciso ler, ler no papel! Ler revistas e jornais, guardar recortes de publicações e levá-los às lojas de discos para saber se os materiais já tinham chegado. Ou até mesmo se existiam.

Foi a partir do mês de junho de 1990 que um dos gêneros de rock mais icônicos daquela década chegou ao país.

E foi por meio da BIZZ, uma das revistas, senão a única, mais importante do circuito musical de então.

Na edição 59 do periódico, o jornalista André Forastieri passou a ser o editor. Egresso do jornal Folha de S.Paulo, onde cobria quadrinhos, cinema e música para a Ilustrada e foi o primeiro editor do Folhateen, colocou o brasileiro na pista das novas bandas da década de 90.

Não à toa que, no primeiro número em que editou a revista, os grupos da gravadora Sub Pop – Mudhoney, TAD, Nirvana, Soundgarden e Thee Hypnotics – foram citados como as maiores novidades do rock.

A matéria sobre a nova Meca do circuito alternativo daquela época foi assinada pelo jornalista Álvaro Pereira Jr – aquele mesmo, do Fantástico, e que assinou por muito tempo a polêmica coluna Escuta Aqui! – também do caderno Folhateen (Folha de S.Paulo).

O texto em questão veio com o título: “SUB POP – Um selo independente de Seattle concentra a nova vanguarda do heavy metal”. Sim, foi dessa forma que o grunge deu as caras por aqui.

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“Um selo independente catalisa o movimento. Nome: Sub Pop. O dono é Bruce Pavitt, ex-crítico de música que, de tanto receber demos no jornal, resolveu abrir uma gravadora para abrigar os renegados do mainstream. Com cerca de dez bandas assinadas, o Sub Pop passou a ser referência obrigatória. Soundgarden e Mudhoney se destacam. O primeiro saiu da Sub Pop, mas mantém o espírito. O Mudhoney já se chamou Green River, foi a primeira banda da gravadora e influenciou toda a leva de  grupos de Seattle que veio na cola. Na verdade, o Mudhoney é uma espécie de cruzamento entre o Black Sabbath e o Fall. Muito barulho, vocais cavernosos, melodias estranhas, repetitivas. O peso não se limita a guitarras distorcidas à moda do pop inglês. No caso do Mudhoney, a bateria ensurdece e o baixo induz tremores”, indicava a matéria.

Após algum tempo, em meados de 1991, o grunge foi catapultado e cooptado pelas mídias hegemônicas depois do sucesso estrondoso do álbum Nevermind, segundo trabalho do Nirvana.

Assim, tornava-se o estilo musical mais visível de então. O mesmo aconteceu com o hard rock nos anos 1980. Neste sentido, o gênero tornou-se uma moda e foi elevado de um som de nicho norte-americano para o mainstream mundial.

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Kurt Cobain

Com isso, toda e qualquer banda da região virava objeto de desejo do mercado fonográfico. Um exemplo clássico deste fenômeno foi quando os Melvins, três malucos que tocavam uma espécie de punk psicótico, assinaram com a major Atlantic Records. Para se ter uma ideia, algo equivalente a isso ocorreria no Brasil caso o Henry Cristo tivesse um programa no horário nobre da Rede Globo.

Foi dentro deste contexto que o vocalista do Alice in Chains, Layne Staley, assustou-se com um pôster de sua banda ocupando o lugar de destaque na sala da gravadora Columbia Records, onde antes ficava um pôster do Poison, grupo de hard rock.

Nas lojas de departamento, era possível comprar um “kit-grunge”, que continha flanela, calça jeans rasgada, camiseta de banda e tênis All Star cano alto.

Nesse sentido é possível perceber a diminuição de significado do estilo. Se agora o grunge era uma moda, ficava escondida toda a sua relação orgânica com a região em que se formou.

Se aqueles jovens, em sua maioria pobres e oriundos da classe trabalhadora, usavam camisas de flanela, não era por conceito ou vaidade. Ocorria que em suas cidades não somente os músicos vestiam-se assim, como toda a população, visto que as flanelas eram o “uniforme” de baixo custo dos lenhadores que trabalhavam nas madeireiras e movimentavam a economia local naquela região de frio constante.

Outro equívoco é dizer que o som das bandas era parecido, pois, alguns conjuntos flertavam mais com o heavy metal e outros mais com o punk. Não tinham unidade musical definida, contudo eram, sim, uma mistura, um bric-à-brac em homenagem às gerações anteriores. Apenas uma característica era presente nessas bandas, a temática das letras, que contemplava a geração slacker, marcada pela apatia.

ENTÃO, SOBRE O QUE FALAVAM ?

Em um panorama em que todas as ideologias de esquerda e direita haviam falido com o fim da União Soviética e os evidentes problemas sociais inerentes ao capitalismo sendo expostos, restava apenas falar sobre esta preguiça reluzente nos jovens daquela geração, a incredulidade, a vertigem, o nada. Nas composições, percebemos também uma vertente sarcástica, niilista e de negação de tradicionalismos, o que soava como um protesto em um primeiro momento.

O grunge também indicava um sentimento desolado em relação a uma época em que o Ocidente era dominado por um sistema econômico capitalista neoliberal e excludente que não trazia perspectivas aos jovens. E se a coisa parecia feia por lá, aqui no Brasil, país sintomaticamente afetado pela política norte-americana, ia ainda pior. Dadas as circunstâncias, a conexão entre as gerações de roqueiros dos EUA e de cá foi inevitável e, obviamente, esvaziada em sentido pela mídia, que colocava o estilo como “coisa de drogados e deprimidos”, arrefecendo toda a índole contestatória que vinha no bojo de suas influências do punk e de sua origem na classe popular do Oeste norte-americano.

Muita água se passou de lá pra cá, hoje o gênero é considerado datado e ultrapassado; entretanto ainda possui muitos seguidores no Brasil, fiéis à essência do que representou um dia.

Não são poucas as bandas que refletem a sonoridade daquela época e – em meio a Youtubers que publicam tutoriais sobre “como ter o estilo grunge e suas principais peças de roupa” – alguns grupos ainda mantêm as características essenciais que deram forma ao movimento.

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