Crônicas do Caos – Cidade Cinza

 em Literatura

Era mais um dia simplório. Ele acordava às 06:15 da manhã de uma segunda-feira levemente ensolarada. Dessa vez, pegou sua maior mala para que coubesse toda a bugiganga. Quando saiu de casa, o tempo fechou de repente. Ares cinzas se infiltraram em sua respiração pulsante, repletos de poluição seca e agonizante.

7:00 / Toma o primeiro ônibus rumo à estação de trem, encoberto pela imensidão sonora distribuída pela sonata número 21 de Franz Schubert em seu fone de ouvido barato. Procura se aprofundar na calmaria que é preconizada no ritmo das canções que encontra na coletânea de música clássica no aplicativo do celular. Tudo para desativar o inerte desespero de ter que iniciar mais uma mórbida semana na grande metrópole.

7:23 / No trem, aquela multidão gloriosa se esmagando, almejando seu pequeno cubículo de espaço, de forma a contemplar a individualidade dos animais.

Nessa hora, o instinto da selva predomina. Se deleita nas melodias de Enrico Caruso.

7:30 / Pensa na quantidade de vidas miseráveis e insignificantes que o rodeiam, e não se conforma como aquelas pessoas se encontram em um poço tão fundo de estagnação.

Porque elas não movem dedos e montanhas para se livrar daquela rotina medíocre?

Ah… De repente, se recordara de que é mais uma daquelas míseras almas sem salvação.

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7:42 / Assim, ao pisar para fora da estação, sente raiva de todos, um ódio gritante pela humanidade! Naquele lapso de segundo mataria a todos! Seria capaz de se sair por aí distribuindo socos e facadas em meio aos pedestres que passam a sua frente.

Clama para que algo diferente aconteça em sua pacata vida. Um acidente de trânsito, uma briga intensa, algum evento catastrófico, um pesar na cidade cinza. Algo que lhe abstraia das banalidades cotidianas que tanto corroem sua introspecção.

7:49 / Até que se aproxima do último farol rumo ao prédio onde trabalha.

Atravessa no farol vermelho, afinal não havia carros se aproximando. Porém, um sujeito vira a esquina buzinando de maneira surtada, para assim alertá-lo do perigo. Fica parado na frente do carro, e o motorista para de maneira brusca. Ele buzina raivosamente, e o xinga.

Não há reação.

Troca a música que está tocando em seu velho celular de tela rachada.

Ahhh… Sagapo… sua canção favorita… fecha os olhos e sente a canção tocar o coração e a alma.

Abre sua incômoda mala, que naquele dia continha algo incomum. Um objeto de médio comprimento. O motorista o observa tirar lentamente o objeto da mochila, com tranquilidade.

Um machado. Feito pelas próprias mãos de seu pai, que era um excelente marceneiro na juventude.

7:52 / Pula com todo o vigor de um homem esgotado e furioso em cima do carro, e começa a espatifar o teto sem parar um segundo sequer. Teus olhos se enchem de brilho, um grande sorriso se abre em seu rosto, que agora está afogado em um estado de plenitude, agora ao som de Vesoul, Jacques Brel.

O homem assustado tenta sair do veículo, mas é atingido com uma machadada no ombro, e antes de se salvar, toma um golpe na cabeça com a parte traseira do machado, que o deixa inconsciente.

7:55 / Desce do veículo, encosta e acende um cigarro. É um homem clássico, de modos. As poucas pessoas ao redor olham abismadas para o ocorrido, sem compreender. Naquele dia, algo de interessante aconteceu na vida miserável delas. Algo que as contemplassem, um show de horrores. Ele permanece tranquilo.

Por alguns segundos em anos, se sentiu vivo e cheio de energia. Foi o dia em que a misantropia tomou conta de seus interiores.

8:00 / Hora do trabalho.

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