Cinema, Política E Ativismo: Inter-relação?

 em Cinema, Cultura Pop

As mudanças pelas quais passou o mundo no século XX em suas formas de representação da realidade pela arte contemporânea, trouxeram para nós um leque de obras magníficas que, com o passar do tempo, se diluíram nos mais diversos campos intelectuais e espaços públicos ao redor do mundo.

As produções artísticas e os movimentos filosóficos se retroalimentavam como fenômenos políticos decorrentes da época, principalmente após o maio de 68 na França. Se reproduziam de maneira vasta ao mesmo tempo em que ocorriam as mais diversas transformações, principalmente na política.

Falando no caso mais específico do cinema, certas obras se tornaram incendiárias pelo seu teor político e subversivo a partir dos anos 50. Filmes de grandes cineastas como Luis Buñuel, Pier Paolo Pasolini e Ken Russel na Inglaterra, sofreram inúmeras retaliações, censura, perseguições, devido ao caráter contraventor contido nos filmes.

Vou expor alguns filmes que na minha opinião são muito interessantes para refletir a respeito dos reflexos que tais obras deixaram espalhados pelo mundo, como forma de estimular o pensamento crítico através da sétima arte.

Mas, vale ressaltar que os filmes aqui expostos não se tratam de tramas que falam sobre regimes ou líderes políticos. Procurei trazer filmes com uma ótica diferente para o pensar político, sendo que é possível refletir a respeito de outras questões da vida política na qual estamos inseridos e como nos relacionamos com ela, além do reflexo povo-governo e vice-versa.

A partir daí somos instigados a reflexão sobre diversos aspectos importantes como o cultural, social, estrutural e institucional por exemplo:

# Saló, ou os 120 dias de Sodoma (1975)

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Pier Paolo Pasolini sempre foi um cineasta controverso. Suas obras eram marcadas por intensos ataques às oligarquias burguesas da Itália e contundentes críticas à sociedade ocidental. Saló, seu filme de maior sucesso é uma referência a 120 Dias de Sodoma do escritor francês Marquês de Sade.

O filme retrata uma orgia organizada por quatro dirigentes da Itália fascista no período ditatorial regido por Benito Mussolini em uma cidade afastada.

Cada dirigente representava uma instituição: A Igreja, o Estado, a Justiça e a Nobreza. A ideia foi organizar uma orgia com um grupo de 8 garotos, 8 garotas, 4 narradoras de histórias, 4 putas velhas, 8 garanhões, 4 criadas, 6 cozinheiras e as 4 filhas dos libertinos, casadas entre eles.

Extremamente perturbador, o filme expõe uma série de torturas sexuais e psicológicas praticadas com os prisioneiros, dentre mutilações, pedofilia, e muita violência explícita. Acima de qualquer teor moral que se possa ter sobre o filme, a ideia que fica é exatamente essa: a inexistência de princípios morais. A reflexão provocada pelo diretor era sobre a crítica da relação da racionalidade do mal na sociedade burguesa com a reprodução da cultura fascista.

Pasolini teve seu filme censurado por toda a Itália, criticado e perseguido constantemente, até o momento de sua morte (assassinado pouco tempo após o lançamento do filme, por motivações políticas contidas em sua arte).

# Os Demônios (The Devils, 1971)

Filme produzido e dirigido pelo diretor Ken Russell na Inglaterra, dessa vez com a intenção de promover um ataque a tradição cristã no mundo ocidental com um filme que representa o poder imperial que a Igreja Católica tinha no século XVII. A princípio o espectador pode imaginar que é um filme de terror, devido aos primeiros desdobramentos que se dão no filme serem explanados com muita violência e cenas de supostas possessões demoníacas. Mas, é um filme estritamente político, tanto na estética quanto no conteúdo.

O filme se passa na França de 1631 em um cenário onde a Igreja Católica lutava contra os protestantes. Havia mais uma cidade a ser dominada pelo regime católico. O reverendo Grandier era um líder e sacerdote respeitado na cidade, e passou a definir os rumos políticos a serem tomados.

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O desenrolar do filme se dá a partir do momento em que as freiras começam a ter desejos sexuais com o reverendo, porém, uma freira em específico é utilizada como instrumento de queda política do padre.

Por conta da forte repressão sexual preconizada pela Igreja, o desejo compulsivo de uma freira pelo padre é visto como possessão demoníaca, sendo um ótimo motivo para acusá-lo de ’’ encantador de serpentes”, ‘’servo do demônio’’.

A partir daí, é planejada uma série de acontecimentos que levariam a sua queda como líder, e o fim da última cidade protestante na França. As acusações religiosas feitas por parte da Igreja se transformam em uma verdadeira cortina de fumaça, que velam os reais interesses político-institucionais pela manutenção do poder.

Podemos dizer que é coincidente com os tempos políticos em que vivemos aqui no Brasil, não?

O filme é um verdadeiro ataque a Igreja Católica e suas tradições políticas, repleto de provocações odiosas por parte do diretor. Russell conseguiu canalizar todo o seu ódio pela religião nessa obra.

# Lágrimas de Gaza (2010)

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A diretora norueguesa Vibeke Løkkeberg procurou fazer um filme/documentário que pudesse retratar a situação neocolonial em que vive a Palestina sob o domínio de Israel e sua geopolítica sionista.

O filme acompanha a realidade de três crianças palestinas vivenciando os ataques de Israel à Palestina em busca de guerrilheiros do Hamás entre 2008 e 2009. Foram 22 dias de uma violenta operação militar narrados por três crianças que tiveram perdas familiares e viram seus lares sendo destroçados.

A diretora acompanha o processo de um duro amadurecimento dessas crianças frente a uma realidade de constantes conflitos e destruição em massa de sua terra.

# A Fábrica de Nada (2017)

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Neste recente filme português, Pedro Pinho nos trouxe à tona uma reflexão que já era considerada antiquada nos debates intelectuais da Europa: a autogestão no trabalho. Em um cenário de intensa crise econômica e ajustes fiscais corrosivos nos gastos públicos, Portugal foi extremamente afetado, incidindo em fechamentos de fábricas, demissões em massa, etc.

Em meio a esse contexto, uma fábrica de elevadores decide fechar uma de suas filiais onde os funcionários passaram toda a sua vida trabalhando. Indignados, os trabalhadores resolvem ocupar a fábrica até que a decisão de acordo seja mudada. Eles querem que a fábrica continue.

Após constantes conflitos com os gestores e a política, um intelectual francês resolve ir até lá para analisar como os funcionários construíram um movimento de ocupação e resistência. A partir daí esse intelectual começa a auxiliá-los no sentido teórico a iniciar um movimento de autogestão na fábrica.

O filme tem duração de três horas. Particularmente, achei um pouco maçante por conta do tempo, porém, é um filme divertido e extremamente inteligente em suas tiradas, debates intelectuais a respeito dos atuais rumos do capitalismo e suas crises globais, com uma pitada de musical.

Esplêndido.

# Tatuagem (2013)

Tatuagem é um filme nacional de 2013 dirigido por Hilton Lacerda.

O filme trata de uma questão amplamente discutida por diversos vieses nessa condição de pós modernidade em que nos encontramos: política e institucionalização dos corpos nas sociedades modernas.

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O personagem Clécio Wanderley mais conhecido como Paulete no filme (estrelado por Irandhir Santos em uma brilhante atuação), é diretor de um coletivo de teatro chamado Chão de Estrelas, atuante em duas cidades do Nordeste brasileiro em pleno período de escoamento da ditadura militar (1978).

O grupo era um coletivo de resistência artística com aspirações anarquistas, que, com o teatro, encontraram formas de provocar os valores tradicionais da sociedade naquele período. Neste cenário Clécio conhece o soldado Arlindo Araújo apelidado de Fininha, um jovem de 18 anos que logo cedo se adaptou a realidade militar da corporação.

O ponto central do filme é a relação amorosa entre os dois, com um constante embate entre valores e posições em que cada um se encontrava naquele momento de vida, e como lidavam com as dificuldades de manter o relacionamento escondido da sociedade. De um lado, muita ordem, rigidez, subjetividades autoritárias, e de outro, liberdade, indagações, arte, homossexualidade e contravenção. Os antagonismos acabam por se completar.

# O Som ao Redor (2012)

Posso dizer com muito gosto: esse é um dos filmes mais inquietantes que já tive o prazer de assistir.

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Kleber Mendonça Filho conseguiu representar as simplicidades do cotidiano desigual no Brasil em imagens fortes e impactantes que nos cutucam de maneira incômoda. O clima frio e vazio, a lenta passagem de uma cena para outra, se fundem com uma estética visual que nos tira de uma extrema zona de conforto para nos colocar em posição de confronto com a dada realidade social onde nos encontramos.

Uma rua de classe média no Recife recebe alguns guardas que trabalham para uma empresa de segurança particular, comprometidos em trazer proteção para o bairro tendo em vista os supostos aumentos no índice de criminalidade da região. Porém, durante esse período, diversos segredos ocultos quanto a relação dos guardas com a vizinhança passam a se revelar.

O filme contém um teor sombrio em suas narrativas, mas o pior de tudo é quando percebemos que esse ‘’sombrio’’ é o que há de mais comum em nosso cotidiano no Brasil. Diariamente nos deparamos com situações onde a guerra de classes é representada em pequenos gestos e comportamentos.

A divisão de classes construída por muros sociais fica escancarada nesse filme, de forma que tais muros se esvaem perante nossos olhos como espectadores.

# Pelo Malo (2013)

Pelo Malo (cabelo ruim), é um filme venezuelano dirigido por Mariana Rondón. A diretora procurou trabalhar um tema delicado e pouco falado na Venezuela: a homossexualidade na sociedade.

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O garoto Junior (foto acima) vive com sua mãe em uma relação muito conturbada, e seu sonho é ficar bonito para o dia da foto na escola. O problema é que nunca está contente com seu cabelo, está sempre tentando alisá-lo para se parecer com um cantor pop famoso.

A relação de Junior com seu cabelo no filme é simbólica. O conflito com seu cabelo é na verdade o conflito consigo mesmo ao sentir as primeiras sensações quanto a sua sexualidade. As conturbações da trama se encontram na convivência do menino com sua mãe, que percebe desde cedo as mudanças de comportamento dentro de casa. Sua mãe passa a agir com extrema rigidez e disciplina para com o filho, de maneira a nos colocar diante de intensos desentendimentos entre os dois dentro de caso. Uma provocação passa a ser pior que outra. Tudo isso em um contexto de extrema pobreza, dentro de um cenário político representado pelas ruas com as fotos do falecido presidente Hugo Chávez coladas pelos muros.

# Conducta (2014)

Conducta (Numa escola de Havana), é um filme cubano de extrema importância para quem procura aprofundar o olhar sobre a realidade social de Cuba.

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O pequeno Chala é um garoto de onze anos que vive dentro de um meio perturbado e violento. Sua mãe é viciada em drogas, portanto, Chala começou logo cedo a trabalhar com treinamento preparatório de cachorros para rinha, um trabalho informal. É ajudado por um homem que supostamente é seu pai biológico. A trama do filme se dá no reflexo de sua vida pessoal no colégio e com a professora Carmela, por quem tem muito respeito.

O laço entre ambos se intensifica muito após alguns problemas ocorridos na escola, e a professora se torna uma grande companheira de vida de Chala. Daí, também vem a relação do filme com a educação em Cuba.

A riqueza do filme está em suas particularidades, que nos permitem entrar em um verdadeiro processo de imersão a respeito de pequenos problemas na sociedade cubana. Detalhes cinematográficos e cenas simbólicas nos revelam muita coisa sobre o modo de funcionamento das coisas no sentido ideológico.

# A Culpa é do Fidel! (2006)

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Por último, trago um filme divertido de assistir. A pequena Anna com apenas nove anos de idade vivia uma vida tranquila com seus pais, uma típica família feliz e de classe média na França. Até o momento em que seu tio, ativista de esquerda ferrenho morre na Espanha. Seus pais voltam de viagem completamente mudados em suas convicções ideológicas, e, se tornam verdadeiros militantes comunistas. Passam a doar tudo que tem na casa, repensam seus valores, e se engajam na luta contra o golpe militar em ascensão no Chile, protagonizado por Augusto Pinochet contra Salvador Allende.

Desde então, uma série de acontecimentos tomam conta da vida desta família agora empenhada na luta social, e a visão de Anna não consegue processar toda essa mudança. O filme é inteiramente narrado pela garota em seus olhares e indagações frente aos desdobramentos, com um viés cômico sobre a ideologia comunista petrificando-se nas pessoas ao seu redor.

A Importância do Cinema

Certamente, o cinema é capaz de nos inserir em realidades de difícil compreensão. Muitas vezes devido ao olhar crítico que só ele consegue proporcionar.

Falando ainda de política, vale dizer que mesmo com a possibilidade de estudar muito sobre temas relacionados aos mais diversos assuntos dentro desse universo, às vezes falta alguma coisa para aguçar o olhar e desenvolver um raciocínio atrelado a uma determinada questão.

O cinema nos dá direções. Às vezes, até respostas.

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