As Mulheres Nos Filmes De Ação

Ana Paula Santos

No último dia 10 de julho a plataforma Netflix lançou em seu catálogo sua mais nova produção: o filme de ação “The Old Guard” que traz a atriz Charlize Theron interpretando a líder de guerreiros imortais que começam a ser perseguidos por um grupo interessado nos segredos deles.

Assistir tal filme foi uma experiência sensacional e também me levou a algumas reflexões sobre como o cinema lida com esse gênero; o papel da mulher dentro do cinema de ação e outras coisinhas a mais que fui lembrando no meio do caminho.

O gênero de ação é um dos meus favoritos desde que eu era uma criança e assistia os filmes do Arnold Schwarzenegger na TV em companhia da minha mãe (que é fã do cara até hoje). Crescer vendo brucutus musculosos descendo a porrada em todo mundo moldou o meu caráter de cidadã que acredita firmemente que carta de repúdio é besteira e devemos resolver as injustiças na base da violência.

No entanto, de uns anos pra cá comecei a reparar algo que é até um tanto quanto óbvio no cinema, mas, até então eu não tinha notado: QUASE NÃO TEM MULHERES NOS FILMES DE AÇÃO!

E quando falo que não tem, me refiro aos papeis de protagonismo, empunhando armas, derrubando macho na bala (ou no soco, ou na espada, tanto faz, é tudo lindo) e mandando no rolê inteiro. Pensem um pouco sobre quantos atores vocês conhecem por serem protagonistas de filmes de ação. Desde os mais antigos como Charles Bronson, Chuck Norris, Sylvester Stallone  até os mais atuais tipo Jason Statham e Keanu Reeves, a lista é gigantesca. Tão gigantesca que rendeu até a trilogia “Os Mercenários”, idealizada por Sylvester Stallone e que reúne o crème de la crème da testosterona cinematográfica.

Quando penso em cenas icônicas no cinema de ação logo me vem à cabeça Sarah Connor (Linda Hamilton) engatilhando uma 12’ com um braço só para atirar no robô T-1000 numa cena perto do final de “O Exterminador do Futuro 2”. 

As-Mulheres-Nos-Filmes-De-Ação-2

Poucas coisas foram tão impactantes pra mim do que ver na tela aquela mulher no auge da sua fúria enfrentando um robô altamente perigoso e letal; disposta a tudo para salvar o seu filho e assim como toda a humanidade da destruição a ser provocada por aquelas máquinas. Sarah é a grande representação da força feminina: a mãe que defende a cria, a que sofre pela humanidade e quer zelar por todos aqueles que não podem se defender. Igualmente é um soldado forte e preparado que não hesita em ir para a batalha. Ela rouba a cena e faz todos aqueles robôs (incluindo o T-800 interpretado pelo próprio Schwarzenneger) parecerem insignificantes amadores.

O diretor francês Luc Besson sempre valorizou a presença feminina nos seus filmes de ação e ficção científica, tanto que boa parte da sua filmografia é composta por protagonistas fortes, inteligentes e boas de briga; como podemos conferir em produções como “Lucy”, “Nikita – Programada Para Matar”, “Anna”, “O Quinto Elemento”, entre outros (podemos até incluir nessa lista “O Profissional”, que embora seja encabeçado pelo personagem do Jean Reno, quem rouba a cena é a jovem com sede de vingança interpretada pela Natalie Portman).

Com a ascensão dos filmes baseados em quadrinhos (encabeçados por Marvel e DC), começou a ficar mais aparente a presença feminina, embora para cada filme da Mulher Maravilha ou Viúva Negra na telona tenhamos 3 Capitão América, 3 Homem de Ferro e sabe-se lá Deus quantos Batman (parei de contar na trilogia do Nolan). Esse caminho feminino começou a ser explorado e tem um potencial mercadológico muito bom, mas ainda tem muito a ser feito. Dentro e fora dos escritórios dos engravatados que comandam as produtoras de filmes.

Toda essa minha divagação envolvendo a presença feminina nos filmes de ação me leva a uma pergunta: por que não temos atrizes que representam nesse gênero do mesmo modo como temos atores? 

Liam Neeson está com 68 anos e continua firme e forte perseguindo os criminosos que SEMPRE sequestram ou matam algum parente dele (já notaram que vários filmes dele tem essa premissa?). Tom Cruise já protagonizou seis filmes da franquia Missão Impossível (tem mais dois programados para os próximos anos) e também é o protagonista supremo da franquia Jack Reacher. Tudo isso já ostentando 58 anos. Bruce Willis estava na casa dos 63 anos em 2018 quando foi protagonista do remake do clássico “Desejo de Matar”, originalmente rodado em 1974 e estrelado pelo saudoso Charles Bronson (ele mesmo que tinha 53 anos quando fez esse e seguiu adiante como protagonista nos quatro filmes seguintes da série).

No extremo oposto desse raciocínio, os executivos hollywoodianos acharam mais viável fazer um reboot sem vergonha e sem talento de “As Panteras” a colocar novamente em cenas as maravilhosas Lucy Liu (42 anos), Cameron Diaz (47 anos) e Drew Barrymore (45 anos) num terceiro filme da franquia, como era o desejo dos fãs que curtiram muito os dois primeiros filmes (de 2000 e 2003).

Não faz muito tempo presenciei um conhecido dar altos chiliques pela nova trilogia da saga Star Wars ter uma protagonista mulher

As-Mulheres-star-wars-rey.

A personagem Rey – interpretada por Daisy Ridley – não é apenas a principal dessa trilogia, mas, herdeira natural da força Jedi, que move o universo criado em torno dessa série de filmes desde o seu início. Essa nova trilogia também teve a presença da Carrie Fischer de volta no papel de Leia Organa, não mais uma princesa, mas uma forte general da resistência. Sim, isso é bem simbólico. E sim, me emocionei com essa mudança de status da personagem.

Tive de ouvir esse mesmo conhecido em outra ocasião dizer que “garotas não entendem filmes de guerra”. A vontade de brigar foi grande, mas a preguiça foi maior. Em todo caso, outros interlocutores da conversa trataram de colocar o moço de ideias misóginas em seu devido lugar. Eu ouvi isso. Logo eu, que quando criança me acostumei a ver os meus primos mais velhos quase saindo no tapa para decidir quem jogaria com a Sonya Blade no Mortal Kombat 3, e, que ficaram fascinados com a protagonista do jogo Tomb Raider, a estonteante e corajosa Lara Croft e passaram meses dissecando cada pequeno segredo do jogo. Quando foi que os homens se tornaram tão avessos a esse tipo de protagonismo feminino? Deixo aqui a anotação mental para desenvolver o assunto em outro texto.

Voltando ao cinema, nos últimos anos, duas atrizes se destacam pelo protagonismo em filmes de ação: SCARLETT JONHANSON e  CHARLIZE THERON

Inclusive, é da Scarlett o papel de protagonista do filme “Lucy”, dirigido pelo Luc Besson. Mas a grande proeza dessa atriz foi ter dado vida a heroína Viúva Negra, do universo Marvel. Seu filme solo finalmente iria estrear nos cinemas em abril desse ano, mas a pandemia de Covid-19 adiou o lançamento por tempo indeterminado.

As-Mulheres-Nos-Filmes-De-Ação-Mad-Max

Já o repertório de Charlize é mais vasto. Desde 2005, quando foi a protagonista-título do filme “Aeon Flux”, ela esteve em diversos filmes de ação com A maiúsculo; onde é a dona e senhora da porra toda nos mais diferentes modos de coragem, força e determinação que só uma mulher pode ter. Essa sul-africana de 44 anos se supera sempre: ela é a Imperatriz Furiosa do “Mad Max – Estrada da Fúria”, é a gélida e precisa espiã alemã Lorraine  em “Atômica” e acabou de estrear na Netflix como a líder Andy no “The Old Guard”, filme que motivou toda a reflexão dessa que vos escreve.

Nessa nova película a personagem (e a própria atriz) se garante tanto com uma arma de fogo quanto empunhando um machado. E se precisar resolver no chute, na cotovelada ou no soco. Não tem problema porque ela dá conta do recado…

Charlize tem uma versatilidade incrível e já esteve presente em dramas, comédias românticas, romances açucarados; ganhou Oscar de melhor atriz pelo filme “Monster – Desejo Assassino” e foi indicada em 2020 a outra estatueta, pelo seu trabalho no filme “O Escândalo”.

Curiosamente, nesses dois trabalhos, ela interpretou pessoas reais. Existia uma grande vontade por parte do público de que Charlize voltasse ao papel de Imperatriz Furiosa num longa que explorasse o passado dessa personagem tão maravilhosa. A notícia boa: está realmente previsto um filme assim. A notícia ruim: já foi anunciado que o filme vai focar na adolescência da personagem; logo NÃO teremos a atriz em cena. A desculpa oficial é que o roteiro pede uma atriz jovem. 

E agora pergunto pra vocês, caros leitores: não seria muito mais legal ter um filme mostrando alguma aventura da Furiosa sendo interpretada pela Charlize Theron? Afinal, a personagem se tornou o grande destaque por causa da interpretação da atriz, que deu peso, força e fúria a ela.
As-Mulheres-De-Lara-Croft

Outra personagem que teve filme focado na juventude foi a Lara Croft. Depois de quinze anos e dois longas protagonizados pela atriz Angelina Jolie (em 2001 e 2003); acharam que seria de bom-tom retratar sua adolescência, ignorando a mulher que ainda é considerada o rosto e o corpo dessa heroína com jeitão de Indiana Jones. Embora eu reconheça que a Angelina não está no auge da sua saúde física, seria muito bacana vê-la novamente nesse papel. Ainda mais quando lembro do desastre que foi o filme de 2018.

Comentar esse fato me traz outro questionamento: por que não vemos filmes retratando a juventude de personagens homens? Por que não cogitam um filme retratando o início da carreira do espião Ethan Hawke? Aí convocariam um ator mais jovem e dariam um merecido descanso para o “quase senhor” Tom Cruise.

Isso seria bem justo e válido, afinal de contas, os homens também envelhecem. Por que as atrizes são retiradas dos seus papeis de protagonista (mesmo quando mostram que tem muito talento e resistência para o trabalho); e os atores nunca são contestados por sua idade ou por uma possível “falta de vigor físico” para os papeis? É claro que eu não pretendo desenrolar esse assunto aqui, pois, isso implicaria em abordar diversas outras questões que envolvem as desigualdades e injustiças que as mulheres sofrem desde sempre.

Mas está bem claro que nesse meio, envelhecer diante das câmeras e continuar sendo o fodão ainda é privilegio masculino. A menos que você seja Linda Hamilton e tenha a chance de atuar novamente com o seu personagem de maior impacto. Em 2019, ela pode reviver novamente a icônica Sarah Connor em “Exterminador do Futuro: Destino Sombrio”. Aos 63 anos empunhou novamente uma arma e foi caçar robôs do mal.

As-Mulheres-Nos-Filmes-De-Ação-Exterminador3-1

O diretor James Cameron, ao assumir novamente a produção dessa franquia não pensou duas vezes em trazer a atriz de volta. O que foi incrível tanto do ponto de vista cinematográfico (A dupla Schwarzenegger / Hamilton juntos novamente sob o comando do cara que criou os personagens era algo muito sonhado); quanto da representatividade do feminino na tela. Sendo protagonista, coadjuvante e motor da narrativa, as atrizes Linda Hamilton, Mackenzie Davis e Natalia Reyes não decepcionaram em nenhum momento; e deixaram acesa uma luz no fim do túnel de quem quer muito ver mais mulheres nesse tipo de filme.

Com tudo isso, eu quero dizer apenas uma coisa: mulheres podem ser incríveis protagonistas de filmes de ação, sim! Podem se envolver em aventuras pesadas, empunhar armas, descer o cacete em tudo e todos, defender a nação, o mundo, a família, si mesma, os bichinhos, os oceanos… e ser tão ou mais sensacionais do que os protagonistas homens!

As mulheres estão aí em cena, meus amigos, reivindicando seus lugares de rainha em um reino repleto de reis. Elas estão abrindo caminho na base da porrada para que outras rainhas também dominem esse espaço (e todos os outros, dentro e fora do cinema). Do lado de cá da tela, nós só temos a ganhar.

Ana Paula Santos não sabe lutar, mas, aprendeu com a vida que nada é mais eficiente do que um soco bem dado na cara de macho folgado!

Deixe um Comentário

Revista Pé de Cabra 3