Se vai Aldir Blanc…

Poroaberto Poroaberto

Depois das parcerias de Tom e Vinícius, as composições de João Bosco e Aldir Blanc foram as que mais marcaram minha infância — e, portanto, minha formação musical e meu imaginário sobre o Brasil. Me lembro mais de escutar suas parcerias do qualquer uma de Caetano Veloso, por exemplo.

Eu não sabia da existência do viaduto Paulo de Frontin no Rio de Janeiro, mas me lembro de ouvir O bêbado e a equilibrista 2 a 4 vezes ao ano diante do pôr do sol no Rio São Francisco, próxima à ponte de Ibotirama, no sertão da Bahia. Fora as inúmeras vezes que minha mãe a tocava nas manhãs de sábado na sala com aquário e sofá de couro preto do nosso apartamento. Foram anos seguidos nos quais essas cenas — a das férias e a do apartamento — se repetiram enquanto rolavam os versos “Caía a tarde feito um viaduto”.

Descobri antes quem era o irmão do Henfil do que quem era Carlitos. Meus pais contavam dos tempos em que tinham que peitar generais, esconder seus irmãos, fugir pro porão da igreja. Não precisei de nenhuma sessão de análise pra descobrir porque escolhi ser socióloga — aliás, só descobri a análise quando essa profissão me levou ao beco sem saída de mim mesma. Se eu penso no sol se pondo sobre a água doce, detrás do concreto e debaixo da terra seca, escuto automaticamente o acordeão do arranjo de O bêbado e a equilibrista para o disco de Elis de 1979, Essa mulher.

Poroaberto-AldirBlanc-2.jpg

Elis disse em depoimento que essa música representa a união eterna de Bosco e Blanc (que já foi contada por Luiz Fernando Vianna em Aldir Blanc: Resposta ao tempo). Por mais que a parceria entre os dois seja uma das melhores coisas que aconteceu no mundo artístico (e muito mais, porque a vida é larga), com inúmeros clássicos de fazer rir, dançar e se arrastar no tapete atrás da porta, O Bêbado e a Equilibrista é que está por cima da lista de clássicos, por ter se tornado o Hino da Anistia. Cantada pela primeira vez em 1978, antes de ser gravada e antes mesmo da própria anistia, Elis disse num depoimento que, se era de uma música que esse momento precisava para ganhar força, assim seria, pois todas as brechas deveriam ser ocupadas para que se fizesse uma revolução e trouxesse a democracia de volta. Foi assim que Betinho voltou ao Brasil, com um coro que, dizem, emocionou até os fardados. A música fez o sol raiar brevemente num país que estava há 15 anos sob as trevas. Foram muitas mortes e torturas sob a ditadura militar, como as de Manoel Fiel Filho e Vladmir Herzog. Clarice, Maria e seus choros se tornaram também o de uma nação, cravados na história década após década. De uma nação que, como vemos hoje, não entendeu nada. Que teve e tem sua memória apagada a cada dia com mentiras, deturpações dos fatos e mau caratismo. Eu tenho a sorte de poder dizer que nasci ouvindo sobre a ditadura, cresci repudiando essa página infeliz da nossa história. Aprendi dentro de casa. Porque meus pais contavam a História e colocavam músicas pra gente ouvir. Essas que o Brazil não sabe que existe no Brasil. É revoltante. É doloroso. Fico pensando na relação entre nacionalismo e cultura, em quão doente ela se tornou. Embaixadores, cônsules, diplomatas e artistas que não conhecem a produção cultural do próprio país. E um governo que não respeita a atividade diplomática. Tem como dar certo? “Mudou Vila Isabel ou mudei eu? / Brasil / ‘Tá em falta honesto sol do quarador”.

As músicas de Aldir viajam por todos os cantos do país, mesmo que o autor, ele mesmo, não tenha sido muito afeito a viagens. As fotos dele quase soterrado em livros e com um violão do lado são monumentais, de expressões reveladoras. Parece que a própria alma dele está desvelada naquela sala em que os retratos foram tirados. E quando vemos suas fotos em botequins, sinucas, calçadas, com a camisa do Vasco, é o próprio Brasil que caminha por suas vias para se conhecer. É cada um de nós que gosta de uma cervejinha gelada com rabada com angu, naco de peru, lombo de porco com tutu, bolo de fubá, caldo de feijão, vatapá, boca de siri, um namorado, um mexilhão, bife a cavalo, batata frita, goiabada cascão com muito queijo… Fora toda filosofia transcendental: “Num dia azul de verão / Sinto o vento / Há folhas no meu coração/ É o tempo”.

Poroaberto-AldirBlanc-3.jpg

É tanta vida, tanto cotidiano, tanta coisa que temos pra viver, mas a gente está aqui, de frente pro crime que um homem comente contra um país inteiro, com mais de 7 mil corpos no chão. E contando…

“Ai, Santa Cruz, não sou Jesus
Não sou Jesus em Santa Cruz
Somos zumbis”

Como escreveu bem e tanto esse Aldir. Vai na paz, grande.

Aldir Blanc faleceu dia 04/05/2020, aos 73 anos, vítima de Covid-19.

Texto publicado originalmente no medium.com

Deixe um Comentário

São-Paulo-3-De-Abril-De-2020.jpgIMPRESSOES-P2-01.jpg