Sangue No Toca-Discos: Conheça As Murder Ballads

Felipe Rodrigues

As Murder Ballads, Baladas Sangrentas ou Baladas de Assassino estão espalhadas pela cultura de diversos países e a discussão sobre sua origem – assimilada como forma de difusão cancioneira que se reinventa pelas mãos de músicos locais – somente revela a sua importância e a presença marcante no folclore ao redor do mundo.

O sentido de palavra balada reivindica uma contação, uma espécie de história a respeito de um assassinato que pode ser revelada em primeira pessoa (como no caso da canção de Eddie Noack, “Psycho”), narrada por uma testemunha, pela própria vítima ou por um terceiro anônimo que provavelmente leu sobre o assunto e resolveu homenagear o causo como num título sangrento do jornal Notícias Populares.

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As canções originárias que deram vida às baladas de assassinato são muitas, remetem ao século XVIII, e surpreendem pelas diferenças presentes conforme cenários, personagens, idiomas; mas também pela semelhança entre os assuntos tratados.

Ao reparar na composição folclórica “Knoxville Girl” é possível perceber que se trata da mesma balada “The Wexford Girl”; rebatizada e com os cenários transpostos da Irlanda para o Tennessee (EUA). Entretanto, ambas baseiam-se em “The Oxford Girl”, uma murder ballad ambientada na Inglaterra.

“The Oxford Girl” conta a história de um homem que conhece uma garota e, durante um passeio, simplesmente acaba matando-a com um bastão. Após três semanas, o corpo surge flutuando na porta da mãe da moça. 

De fato, este é um dos temas mais recorrentes destas composições e sua contínua reprodução na contemporaneidade tem gerado diversas análises que as colocam como músicas que romantizam o feminicídio. Em tempo, algumas letras realmente parecem ter saído dos sonhos mais doentes de um incel.

Sobre as releituras regionais, um exemplo notável é a canção “Young Hunting”, uma composição popular escocesa do século XIX que foi regravada por Nick Cave sob o título de “Henry Lee”, um de seus variantes. O próprio cantor refere-se à música como “uma história sobre a fúria de uma mulher desprezada”.

E não é pra menos. “Young Hunting” narra a trama de uma moça que esfaqueou seu amante até a morte. Ela cometeu o assassinato após o rapaz lhe contar que havia se apaixonado por outra, mais bonita do que ela. Ao final, o corpo acaba sendo descoberto, e a mulher é queimada em uma fogueira.

Um passarinho pousou sobre Henry Lee

Ela se inclinou sobre uma cerca

Só por um ou dois beijos

E com um pequeno canivete em sua mão

Ela o apunhalou firmemente

E o vento rugiu e o vento gemeu

Um passarinho pousou sobre Henry Lee

O cantor norte-americano Eddie Noack, em sua emblemática “Psycho”, constrói ao longo dos versos um suspense.

Um clima familiar envolve a canção, já que ela se apresenta como uma conversa banal entre o assassino e sua mãe. Aos poucos, a estranheza da situação passa a nos captar completamente devido ao paradoxo dos fatos escabrosos revelados num papo que parece ocorrer em um final de tarde ao tilintar de xícaras de café.

O mais interessante de “Psycho” é que, em meio às revelações sobre as mortes, o assassino pergunta a todo momento à mamãe: “você não acha que eu sou um psicopata, mãe?”. Desse modo, aprofunda mais a construção da personalidade sombria do serial killer.

As mortes desta música ocorrem como em conta-gotas, começando por um homicídio duplo passional e terminando com o rapaz matando a própria mãe. Ao final, o psicopata ainda pergunta: “Mamãe, por que você não se levanta?”.

Assim, há uma sutileza na estratégia narrativa que avança em nuances para terminar em um banho de sangue que coroa o que parece ser a intenção principal do músico: causar ao mesmo tempo, empatia e aversão ao ouvinte.

Não existe uma cultura em relação às murder ballads no Brasil. Se bem que, muitas músicas encaixam-se como uma luva no rótulo e até extrapolam o molde.

Aliás, papo para o próximo post.

Playlists Murder Ballads:

25 Great

On Spotify

Appalachian

On Youtube

Ilustração: Kellen Carvalho

@velha.cosmo

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