Garotas Na Garagem – Parte 2

Felipe Rodrigues

Em princípio, este texto é continuação deste post: Mulheres Na Garagem – Parte 1. Nesta segunda parte, conheça o legado das garotas do rock 60’s no Brasil, Holanda e Estados Unidos!

Idas, vindas e presentes da música brasileira

Certamente, os grupos de garagem formados por garotas não foram um fenômeno somente dos Estados Unidos. A influência das mulheres no rock’n’roll mostrou-se bastante frutífera no Brasil; quando a adolescente Rita Lee, junto de alguns amigos, começou a se apresentar em clubes de São Paulo com o Tulio’s Trio. Grande fã de Beatles, aos 16 anos criou com Suely Chagas a banda Teenage Singers, que tocava em festas colegiais fazendo covers de músicas dos Garotos de Liverpool. A saber, o grupo acabou sendo descoberto por Tony Campello; e passou a fazer coro para as gravações dos Jet Blacks, Demetrius e Prini Lorez.

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Contudo, seria da união delas com um grupo de rapazes que viria à tona uma das bandas mais importantes da música brasileira.

Em 1965, as Teenage Singers juntaram-se ao trio Wooden Faces, que contava com Arnaldo Baptista e Raphael Villardi.

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Assim, o Teenage Singers Wooden Faces tornou-se Six Sided Rockers, agora com o guitarrista Sérgio Dias na formação. A banda depois viraria O’Seis, que chegou a gravar um disco compacto com duas músicas: “Suicida” no Lado A, “Apocalipse” no Lado B.

“Em cima da capota o meu corpo jazia

E pela minha face o sangue escorria

Chamaram o meu pai mas veio a minha tia

Levar pro necrotério ela queria

Pois eu já não vivia

Pois eu já não vivia

Mais um inútil morria”

(trecho da letra de Suicida)

Com a saída, então, de três componentes do O’Seis, sobram Rita, Arnaldo e Sérgio, que passam a se chamar O Konjunto, para depois Os Bruxos.

Por influência de Ronnie Von, a banda passou a chamar-se Os Mutantes; marcando para sempre a cultura brasileira com músicas icônicas como “Ando Meio Desligado”, “Meu Refrigerador Não Funciona” e “2001”.

BIFURCAÇÕES

Suely Chagas, à época nas Teenage Singers, decerto era uma voz destacada da banda. Tanto é que Tony Campello pretendia escolhê-la para substituir sua irmã, Celly Campello, que àquela altura havia casado e se distanciado da música.

Entretanto, ao ganhar uma bolsa para estudar nos EUA, Suely Chagas teve que sair dos O’Seis; e, mais tarde quando retornou ao Brasil, a vida musical de Rita, Arnaldo e Sérgio já estava bastante avançada.

Logo após, Suely juntou-se a Raphael Villardi, Lanny Gordin – um dos guitarristas mais talentosos do Brasil – e outros músicos. Formou-se o grupo Os Kantikus, que chegou a gravar um compacto pela Phillips, apresentando as músicas “Que Bacana” (Lado A) e “Esperanto” (Lado B). Infelizmente Os Kantikus não tiveram vida longa no cenário nacional; por consequinte Suely abandonaria o conjunto, tornando-se assim dentista.

DIANA

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Ana Maria Siqueira Iório, cantora brasileira conhecida artisticamente como Diana; deu seus primeiros passos na música ao final dos anos 60 conforme seguindo a onda da Jovem Guarda. Sua estréia foi com o disco gravado em 1969 pelo selo Caravelle; e contava com a música “Menti pra Você”. Esta canção foi um sucesso naquela época, ficando por mais de quarenta semanas em primeiro lugar entre as mais tocadas de uma rádio popular. Mas foi em 1970 que Diana lançou a música “Eu Gosto Dele” (composta por Odair José e Rossini Pinto); inegavelmente canção que chegou em um nível extremo de psicodelia e crueza no Brasil.

“Se ele é estudante eu não sei, se ele é Flamengo eu não sei, se ele é poeta eu não sei, eu só sei que eu gosto dele!”, canta Diana.

Esta música era o Lado B do compacto lançado pelo selo Epic, tendo “Não Chore Baby” do Lado A. Naquele mesmo período, Diana passa a ter seu trabalho produzido por Raul Seixas; além disso, teve algumas composições gravadas por outros músicos como José Roberto (Que Tolo Fui) e Odair José (Mundo Feito de Saudade).

GAROTAS E GUITARRAS INVADEM OS PAÍSES BAIXOS

Na Holanda, o grupo Jenny and the Rascals, liderado pela adolescente Jenny Streur, gravou dois singles em meados dos anos 60. Do mesmo modo, até hoje possui uma legião de seguidores do chamado dutch girl pop (algo como pop feito por garotas holandesas); graças ao single que lançaram em 1966, You Told me a Lie. A banda formou-se em The Hague, capital da província de South Holland, no Oeste da Holanda.

Jenny Streur, antes de tudo, foi influenciada pelos pais a entrar no mundo da música. Eles eram membros de um grupo vocal da cidade conhecido como The Reilly’s. Aliás, quando criança, Jenny costumava substituir os membros da banda quando era preciso. Desta forma, ela começou a ter contato com os instrumentos e aprendeu a tocar guitarra.

Alguns anos depois, começou a cantar com sua irmã, Joke; e em seguida montou a banda The Cocktail Sisters, que gravou algumas músicas como Alleen op de wereld (1960) e De leuke boy (1961).

Em 1965, com 15 anos de idade, Jenny decidiu formar outro grupo, com o intuito de desta vez soar mais parecido com sua banda favorita, o Them (conhecido pelo hit Gloria). Assumindo os vocais e a guitarra, convocou outro guitarrista, um baixista e um baterista, respectivamente: Ton van de Neut, Aad Plumiert e Ruddy Fisscher.

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O pai de Jenny tornou-se o empresário da banda, pois havia uma disputa com o dono de um clube local (Jacques Senf), que os impedia de tocar. Então, o conjunto, sem a possibilidade de tocar em sua cidade natal, começou a fazer shows em outros locais da Holanda, na Bélgica e na Alemanha. Durante este período, foram banda de apoio para o The Troggs (grupo de rock britânico que assinou com o mesmo empresário dos Kinks).

Com um ano de atividades, a banda assinou contrato com o selo Artone e gravou seu primeiro single: o clássico garageiro You told me a Lie, que Jenny ajudou a escrever.

Esta gravação tinha como Lado B a música Goodbye my love, goodbye my happiness.

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De fato, a repercussão da banda e do novo single foi tanta que Jenny foi convidada por Brian Epstein, à época empresário dos Beatles, para formar um grupo de garotas na Inglaterra. Mas, ela recusou a oferta. Depois disso, o conjunto lançou seu segundo single, That’s a man’s way, em 1967, com Baby you know you ain’t right no Lado B do compacto. Entretanto, em 1968, conta-se que quando um dos membros do grupo teve um caso com sua irmã, Jenny decidiu parar no meio de uma turnê e, assim, Jenny and the Rascals chegou ao fim.

RELÍQUIAS OBSCURAS DO ROCK FEMININO

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Voltando aos EUA, um grupo que não teve tanto destaque quanto os outros foi o The Belles. Formada em Miami, na Flórida, a banda de garage rock tinha apenas garotas em sua formação. Elas fizeram uma releitura do clássico do Them, Gloria, mas alteraram o nome de Gloria para Melvin, como cantam no refrão da canção pop. Melvin foi a segunda gravação das Belles, que também fizeram versões de Sleep Walk (Santo & Johnny) e La Bamba (música folclórica mexicana). Melvin é de 1966, mesmo ano em que gravaram a autoral Come Back. Ambas podem ser encontradas na compilação Girls in the Garage – Vol. 1.

O LEGADO DAS MENINAS

Posteriormente aos anos 60, foram reconhecidos vários ícones do rock feminino como Janis Joplin, Grace Slick (compositora de White Rabbit), Patti Smith, entre outras. Mas a representatividade continuou com os homens, vide Elvis, considerado o “Rei do Rock” e Hendrix, o “Deus da Guitarra”.

Após o revival do garage rock nos anos 80, colecionadores e aficionados buscam até hoje gravações de época, revistas e discos onde possam ser encontrados “novos-velhos” grupos de garotas que não obtiveram reconhecimento em meio a tantas bandas que surgiam naquela época. Esses materiais tornaram-se verdadeiras relíquias e, quanto mais obscura a banda, maior torna-se o fetiche e a idolatria dos apreciadores. As gravações puras, cheias de ruídos, dançantes, com ausência de tecnologias e efeitos; mostram uma sonoridade crua, autêntica, que parece mais próxima de quem a escuta e talvez por isso alcance cada vez mais seguidores.

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