Desconectada: Fora De Área

Rastros de Orquídeas

Encontrei com minha amiga para um café da manhã.

A comida estava ótima mas a conversa não tanto, a cada cinco minutos interrompíamos para checar o celular.

Um casal bonito e apaixonado de uns 25 anos se sentou na mesa ao lado e assim que se acomodaram ele sacou o celular do bolso, quase uma cena de The Good, The Bad and The Ugly.

Whatssap? Facebook? Noticias? Futebol? Não dava pra saber, mas a garota apaixonada disputava a atenção com a pequena tela conseguindo apenas olhares furtivos e desinteressados.

O garçom se aproximou e, por um segundo, ele baixou o celular pra fazer o pedido. Não sabemos se pediu somente um café para voltar mais rápido à tela ou se era mesmo o que ele queria…

Já ela pediu ovos mexidos, torradas, salada de frutas e um cappuccino talvez tivesse mais apetite por estar sem celular ou, quem sabe, a comida fosse forma de compensar a falta de atenção do parceiro. Não sabemos dizer se teve a infelicidade de esquecer o aparelho em casa, se descarregou a bateria ou se não o carregava por opção, mas era claro que a coitada estava desconectada.

Ficamos chocadas!!! Aquele tipo de atitude era totalmente absurda!!!

Então, reparamos que nosso encontro ia pelo mesmo caminho…

Foi quando respiramos fundo, colocamos os celulares no cantinho da mesa – mas ainda ao alcance das mãos –  e, realmente, começamos a conversar.

A cena ao lado foi surreal ou, talvez, tão real que não conseguimos deixar de comentar.

Chegamos à conclusão de que deveríamos fazer alguma coisa. Mas depois de uma análise rápida percebemos que interferir na vida do casal poderia causar um desconforto ainda maior para a garota. Agora, nossa única opção era fazer algo que interferisse apenas nas nossas próprias vidas.

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Veio a pergunta: Como seria ficar sem celular por um dia? Não seria tão difícil ficar sem olhar as curtidas no Instagram; seria até bom não se sentir pressão para responder os e-mails imediatamente; que ótimo não ser incomodada por gifs dos grupos de WhatsApp e que verdadeira maravilha não atender ligações de telemarketing.

Estava resolvido. Iríamos desligar nossos smartphones naquele instante.

Só que a empolgação durou o tempo de desbloquear a tela. Em menos de um segundo: Pânico! Mas e se o boy do Tinder enviar mensagem? E se o cliente quiser fechar o orçamento? E se os amigos combinarem balada a noite? Pior: e se minha mãe for parar no hospital ou o pneu do carro furar?

A discussão foi tamanha que acabamos deixando o projeto para metade do dia. Ótimo! Nós duas parecíamos estar satisfeitas com a decisão, a não ser pelo silêncio tenso que ocupou a nossa mesa apenas interrompido com uma ideia melhor: Desligaríamos os nossos celulares no domingo às 21h e só ligaríamos na segunda às 07h; afinal era um período sem muitos acontecimentos, não correríamos grandes riscos, mas ainda teríamos uma boa experiência. Ótimo estava decidido!

Assim foi feito. 20:55 mandei a última mensagem para minha amiga desejando boa noite e confirmando o início do nosso projeto.

Acordei na segunda-feira serena, meu primeiro pensamento foi: “como fez bem esse período desconectada”. Dei aquela espreguiçada pela primeira vez em muito tempo sem o celular na mão!
Pânico! Não tinha pensado nisso, meu despertador é no celular, corri para ver as horas no relógio da cozinha: já eram 11 horas, eu provavelmente seria demitida. Me preocupei com a minha amiga e a primeira coisa que fiz ao ligar o celular foi ligar para avisá-la da nossa gafe.

Caiu na caixa postal.

Mostrando 2 comentários
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    Silvia
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    Rsrs fantástico. Mas essa vida conectada tá nos deixando assim mesmo. Estamos perdendo preciosos momentos com quem amamos. Precisamos rever o conceito. Importante é quem está do nosso lado e não na tela do celular.

  • Avatar
    Cris Wenzel
    Responder

    Adorei a crônica!!! Vocês escrevem muito bem !!!! Com humor, fazem com que enxerguemos a sociedade doente na qual vivemos !!!

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